Sempre fui muito frustrada com a baixa tolerância que tenho ao jogar FPS. Suporto bem boa parte dos jogos em primeira pessoa por mais ou menos meia hora antes de me sentir nauseada a ponto de ter que fechar os olhos imediatamente para combater a ânsia e desorientação. O motivo: motion sickness, que em tradução literal seria algo como “tontura associada à movimentação”. Aprendi com o tempo a evitar todos os games que pudessem me causar essa sensação, e isso influenciou muito a minha preferência por adventures voltados para puzzles e action RPGs em terceira pessoa, além do bom e velho estilo de plataforma em 2D. Mas sempre me perguntei se mais alguém sofria desse mal e se a indústria estava ciente do problema.

Sim, está, e ele é bem mais frequente do que imaginei. Segundo o Guardian, de 10% a 50% das pessoas experimentarão algum grau de motion sickness ao longo da vida. Você provavelmente conhece alguém que precisa tomar remédios contra enjôos antes de longas viagens de carro ou ônibus, não?! É possível encontrar guias sobre a incômoda náusea em plataformas como o Steam, e em praticamente todos os maiores fóruns dedicados a games, o que mostra que ela realmente ocorre com frequência.  A causa mais provável é que nosso cérebro detecta uma discrepância entre a movimentação que enxergamos e o fato do nosso corpo estar parado. Ele conclui então que essa diferença é causada por uma alucinação, provavelmente provocada por envenenamento, e provoca ânsia para induzir o vômito.  Parecido com quando você toma um porre.

O que fazer?

Cada pessoa lida de um jeito com a motion sickness e a intensidade do problema também varia de gamer para gamer. Alguns conseguem se acostumar aos poucos e moldam seu estilo de jogo para minimizar os sintomas. Esse é meu caso: sempre uso a opção de terceira pessoa se ela está disponível e jogo de forma mais “devagar” que a média, evitando movimentação brusca e trocas abruptas de ponto de vista. Ainda não encaro a maior parte dos FPS, mas venci minha intolerância ao 3D que era bem forte quando comecei a usar o Nintendo 64.

Outra dica que funciona bem é se manter hidratado. Beber água ajuda a minimizar a náusea quando ela começa (devagar hein, não vá virar um copo muito rápido porque é desastre garantido). Evite jogar em um cômodo totalmente escuro: o ideal é ter uma fonte de iluminação suave próxima da tela, como uma luminária. Também é recomendado olhar em volta e dar pequenas pausas regularmente, já que a visão fixada muito tempo na tela potencializa a motion sickness.

Se você sofre intensamente do problema eu também recomendo procurar um médico que pode diagnosticar caso você tenha labirintite ou algum transtorno de visão. No meu caso eu descobri após um teste optométrico que tenho excesso de acomodação visual, um problema que também era responsável pela minha visão desfocada depois de horas de trabalho ou jogatina no PC. Hoje uso um óculos apropriado para essas atividades e minimizei bastante meu mal estar decorrente delas.

A indústria também está estudando formas de prevenir e reduzir o problema. Neste ótimo artigo do Polygon algumas empresas mostram a preocupação em criar uma movimentação cada vez mais natural de câmera, sem mudanças de direção ou estabilidade abruptas o suficiente para alertar o cérebro de que algo está errado. O uso de cores saturadas demais também está sendo estudado (e evitado) por conta de sua relação com a motion sickness.

E o mais importante, que aprendi a duras penas: não force a barra. Muitas vezes eu tentava ignorar o enjôo para me enturmar no CS e isso nunca acabou bem: alguns minutos de popularidade não valem a hora seguinte jogado no sofá implorando aos céus para não vomitar ali mesmo. Quando se sentir mal dê uma pausa, saia da frente da tela e, se aquele jogo sempre provocar mal estar, mude de game. A vida é curta para vomitar no controle (não que eu tenha feito isso, mas vocês entenderam).

Compartilhar
Designer, professora e mestra em arte digital. Viciada em literatura, cinema e cibercultura, encontrou nos games a união perfeita de todos os seus hobbies.