Muitas pessoas que cresceram vendo filmes e séries policiais devem ter imaginado como é ser um CSI pelo menos uma vez. Her Story, disponível para PC, iOS e OS X,30 é um jogo que pode aproximar dessa experiência ao colocar o jogador no papel de um investigador que precisa assistir horas de depoimento de uma mulher acusada de matar seu marido e usar o banco de dados da polícia para tentar reconstruir a história e entender o que realmente aconteceu. 

Criado por Sam Barlow, o responsável por Silent Hill: Shattered Memories e Silent Hill: Origins e autor conhecido pelas tramas psicológicas e pela exploração de elementos da literatura (seus Sillent Hills têm referências a Shakespeare), o game é um dos indicados ao The Games Awards 2015 nas categorias Melhor Narrativa, Melhor Jogo Independente, Melhor performance (para a atriz Viva Seifert) e Games for Change. Acredito que está no páreo em todas, especialmente em narrativa e na performance de Seifert, que narra com muita competência a história de Hannah, e segura o game todo sozinha diante da câmera.

“Se você consegue usar o Google, consegue jogar Her Story“. A frase de Barlow resume a jogabilidade do game: ele se passa na interface típica de um computador de 1994, em que o jogador consegue navegar pelo banco de dados da polícia digitando palavras chaves. A cada busca, são exibidos fragmentos do depoimento de Hannah, acusada de matar o marido Simon, que contenham esses termos. O desafio é pinçar palavras de cada trecho do relato de Hannah que conduzam o desenrolar da história e revelem o que realmente aconteceu com Simon.

Longe de ficar cansativa, a interface favorece a imersão no jogo, e você realmente se sente como um investigador da polícia acompanhando um depoimento. O visual é condizente com o ambiente de trabalho de um computador da década de 90 e a jogabilidade não poderia ser mais simples. E mesmo sem mudança de cenários ou necessidade de habilidade nos controles, o jogo em momento algum me pareceu repetitivo: é realmente desafiador encontrar exatamente a palavra chave que leva aos vídeos mais importantes. Muitas vezes a narrativa é interrompida em um momento crucial e exige esforço para encontrar o vídeo que a completa.

Her Story é extremamente sombrio e assustador sem seguir os estereótipos mais comuns dos jogos de suspense/terror: a instabilidade de Hannah e o desenrolar da sua narrativa nos levam para os horrores cotidianos de uma família aparentemente perfeita.  Como só conhecemos o relato do crime através de uma narradora não confiável, acompanhamos a suspeita sendo cada vez mais pressionada enquanto tentamos interpretar suas reações. Hannah é agressiva, meiga, sensível, fria, extremamente complexa. Em nenhum momento é monótona ou previsível.

O game irá agradar aos fãs de tramas de suspense com alta carga psicológica e aos amantes de indie em busca de jogabilidades inovadoras. Foi uma das grandes surpresas desse ano para mim. E oferece uma experiência de acordo com a sua disponibilidade em explorar: cheguei a revelação do grande mistério do jogo com 1h30 de gameplay, mas ainda estou explorando para conhecer todo o banco de vídeos disponível. Dá também para acompanhar a discussão de teorias sobre o real final em fóruns como o Reddit (repleto de spoilers, cuidado).

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Designer, professora e mestra em arte digital. Viciada em literatura, cinema e cibercultura, encontrou nos games a união perfeita de todos os seus hobbies.