Aviso: os parágrafos seguintes podem conter spoilers dos primeiros volumes da série. Se você ainda não os leu, recomendo que não siga adiante. No entanto, se você já jogou os três jogos da franquia, nenhuma informação realmente nova será apresentada.

Sangue dos elfos, o terceiro volume da série de livros The Witcher, publicado no Brasil pela Martins Fontes, é o primeiro romance de fato da série. Seguido por dois livros de contos que podem ser lidos em separado, esse volume é dividido em capítulos, com uma história concatenada e uma trama que começa a ganhar ares cada vez mais globais e abrangentes, indo de política até um pouco de discussão sobre teoria mágica.

O bruxo Geralt divide o protagonismo com Ciri, a criança que lhe foi prometida pela rainha Calante de Cintra. Após os eventos do segundo volume, que terminou com o estabelecimento de províncias de Nilfgaard na região de Cintra e Sodden, Geralt segue com Ciri para Kaer Mohren, fortaleza dos bruxos da escola do Lobo no Continente, onde ela começa a receber o treinamento marcial da ordem.

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Mapa do Continente (é, Continente). Um problema das edições digitais é a ausência de mapas.

O título do romance, assim como os outros, não é gratuito. O preconceito contra os inumanos – nome dado a todas as raças humanoides além dos humanos, como elfos, anões, meio-elfos – começa a ganhar maiores proporções, conforme os ataques organizados por grupos de elfo Scoiat’el acontecem com mais regularidade. As tensões aumentam com a ameaça do império de Nilfgaard se expandindo, embora um cessar fogo tenha sido negociado após a queda do reino de Cintra. Suspeita-se de que os elfos estejam sendo incitados por agentes de Nilfgaard, com o objetivo de enfraquecer os reinos e facilitar o avanço da marcha conquistadora.

Essas informações, porém, vão sendo apresentadas paulatinamente. O romance começa sob o ponto de vista de Triss Merigold, a feiticeira ruiva amada por uma boa parte dos jogadores da série, atendendo a um pedido dos bruxos para comparecer à fortaleza decadente. Já nas proximidades do castelo, Triss encontra Ciri no meio de um dos seus treinamentos, e já suspeita do verdadeiro motivo de ter sido chamada: a criança surpresa manifesta habilidades mágicas que estão além do entendimento dos bruxos, e tem pesadelos constantes. Triss não é capaz de ajudá-la, então sugere que Geralt peça ajuda a uma feiticeira ainda mais capaz do que ela: Yennefer.

É um alívio prazeroso contar com diferentes pontos de vistas nesse terceiro volume. O leitor dos primeiros livros, apesar de certamente apreciar acompanhar o olhar de Geralt, respira novos ares diante da chegada da feiticeira Merigold, bem como de outros personagens, como Jaskier (de longe um dos meus preferidos), Yennefer e outros coadjuvantes, como espiões de Emhyr e feiticeiros do Capítulo.

Além desse ar mais “familiar”, variar de personagens permite a Andrzej Sapkowski abordar outros aspectos do seu cenário, como as implicações da guerra, as intrigas políticas das diferentes cortes e os grandes interesses na história do mundo que constrói em sua narrativa. Se esses elementos foram esboçados nos primeiros livros, aqui eles aparecem com grande desenvolvimento, e a jornada isolada de Geralt e Ciri começa a se entremear com o destino do mundo – o que pode desagradar os leitores de uma fantasia mais “pé no chão”, encontrada nos primeiros volumes.

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Ciri – jovem, petulante e adorável. Still do The Witcher 3: Wild Hunt.

Uma qualidade inegável do texto do escritor polonês é que, se as narrativas que pareciam mais “descompromissadas” vão ganhando tons grandiosos, envolvendo a sorte de nações, isso acontece de maneira gradativa, de forma que não é difícil acompanhar as intrigas se formando, e a escalada do conflito não pega o leitor de surpresa. As peças são apresentadas e explicadas – às vezes com uma exaustão exagerada, como uma longa conversa entre os governantes dos maiores reinos do Continente – e cada engrenagem parece ir se encaixando de maneira cuidadosa.

Ao passo que os nós da trama vão se apertando, acompanhamos a jornada de aprendizado de Ciri: seu treinamento marcial em Kaer Morhen, as bases elementares de magia que aprende com Yennefer, e sua educação tão diversa. A relação meio maternal, meio fraterna de Ciri e a até então fria e calculista Yennefer é um dos pontos mais positivos deste romance: tanto pela jovem ser adorável em seu vigor pueril, quanto por demonstrar mais uma faceta da complexa feiticeira de cabelos negros, tornando-a mais humanizada. Essas interações constroem personagens complexos, que não podem ser rotulados sob definições simples de “bem” e “mau”, outra qualidade do texto de Sapokowski e muito bem aproveitada nos jogos desenvolvidos pela CD Project RED.

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Allana Dilene joga videogame desde o Mega Drive, mas nunca foi muito boa nisso. Adora RPGs, livros, quadrinhos, seriados, escrever, e tem um emprego nas horas vagas. Aspira ser muitas coisas: ser escritora, pesquisadora e astronauta