Quando eu era uma adolescente começando a me interessar por rock, terror lovecraftiano e roupas pretas com grandes crucifixos eu tinha um medo muito grande de que aquelas coisas fossem malignas e me causassem algum tipo de dano. Curiosamente minha epifania veio com um pouco de aprofundamento no tema – rock é muito diverso, Lovecraft era ateu e não acreditava no demônio – e principalmente, com uma música que a galera mais conservadora usava justamente pra tentar me convencer de que rock é coisa do capiroto, o Rock do Diabo de Raul Seixas:

Existem dois diabos
Só que um parou na pista
Um deles é do toque
O outro é aquele do exorcista…

(…)

Enquanto Freud
Explica as coisas
O diabo fica dando os toque…

Raul Seixas resumiu perfeitamente a diferença do diabo como entidade maligna (aquele do exorcista) e do diabo simbólico, que representa a libertação das culpas e a aceitação dos desejos terrenos (os toques). O rock foi apenas um dos inúmeros movimentos artísticos que usaram a figura do diabo como representação da quebra de convenções da cultura de culpabilização judaico-cristã.

Mas não é esse demônio simbólico que assombra uma família de colonos ingleses nos Estados Unidos do século XVII em A Bruxa. Aqui o diabo é real, palpável e está a espreita na floresta ao lado, personificado em uma de suas servas, que rouba crianças para seus rituais de sangue. A Bruxa, como diz seu subtítulo “Um conto popular da Nova Inglaterra” é narrado do ponto de vista dos colonos puritanos que acreditavam que o diabo estava ao lado, corrompendo irremediavelmente todos aqueles que baixassem a guarda por um segundo sequer.  É nesse sistema de crenças que a história se desenvolve. E é importante ter isso em mente para não acabar, como muitos que assistiram e se manifestaram sobre o filme nas redes sociais, decepcionado por essa literalidade que o filme apresenta.

Mas se o diabo é literal em A Bruxa, um dos maiores méritos do filme é que nada mais é. Não existe gore, nem jumpscares ou cenas chocantes jogadas na tela. A trama se passa em um cenário em que o mais importante não poderia ser dito: uma adolescente vivendo em meio a uma família extremamente religiosa, a protagonista Thomasin não pode expressar claramente nada do que a atormenta. Somos apresentados a ela logo na primeira cena, silenciosa ao lado de seus pais enquanto sua família é julgada por conflitos com a igreja da vila local. Fanático e orgulhoso, o pai se recusa a reconhecer a autoridade da igreja e é expulso da vila, acreditando na superioridade de sua fé em relação às autoridades religiosas. Podemos ler apenas a insinuação de desaprovação nos olhares baixos de Thomasin, já que a adolescente não poderia enfrentar o pai.

Anya Taylor-Joy como Thomasin

O terror começa quando a família se muda para uma fazenda cercada por uma floresta e o bebê da casa, Samuel, é roubado sob os cuidados da menina, literalmente em um piscar de olhos. O filme não faz mistério sobre o que aconteceu com o bebê e a família rapidamente aceita que ele só poderia estar morto, mas a culpa, medo ou raiva de Thomasin nunca pode ser externada e a garota segue sufocada pela autoridade e fé dos pais. O horror do cotidiano se desenrola lentamente na tela enquanto as coisas mais importantes são silenciadas ou ignoradas: a garota é castigada por coisas que não fez, os pais fazem vista grossa para as crianças gêmeas que cantam repetidamente uma música claramente satânica em louvores ao bode preto da casa, a colheita é imprestável mas eles não conversam com franqueza sobre a fome que se aproxima. Quando a falta de diálogo explode em uma discussão dos pais sobre a situação desesperadora da família desamparada nas bordas de uma floresta hostil, ela vira o catalizador para uma série de horrores inimagináveis.

As tomadas com a bruxa são maravilhosas, abusando de referências que vão de Caravaggio a Goya, com uma iluminação barroca e impecável. A fotografia é impressionante em todo o filme e o diretor Robert Eggers fez uma opção inteligente em explorar nas cenas de horror não o abjeto mas a beleza clássica do grotesco, o que torna a experiência de ver atrocidades plasticamente lindas ainda mais aterrorizante.

El Aquelarre, ou O sabá das Bruxas, de Goya (1797 - 1798)
El Aquelarre, ou O sabá das Bruxas, de Goya (1797 – 1798)

O elenco é genial em expressar o cenário opressor em que o mais importante não pode ser dito, e Anya Taylor-Joy é particularmente incrível como Thomasin. Os simbolismos macabros do filme sobre o amadurecimento da menina e o consequente terror que a força sexual feminina inspira nas religiões cristãs funcionam porque são trabalhados com sutileza, sem didatismos ou alegorias superficiais. O filme não faz a opção fácil da pornografia, seja a pornografia gore em jogar o maior volume de sangue na tela para provocar reações automáticas ou a pornografia misógina clássica dos filmes de terror, em que belas mocinhas desnudas são brutalizadas para deleite do público. Embora a sexualidade de Thomasin e da bruxa seja crucial para a trama, ela é presente apenas nos limites que aquele universo permitiria: um decote entreaberto e a nudez parcialmente iluminada, que a câmera nunca explora, apenas mostra.

O som é provavelmente o elemento mais apavorante do filme, com cânticos profanos sendo entoados da floresta e longos silêncios que acompanham as tomadas abertas do cenário. Elemento crucial em um filme que trabalha o terror mais ocultando que mostrando, ele complementa a fotografia de forma natural mas é uma presença angustiante durante toda narrativa. Também contribui muito a opção de Eggers pelo inglês arcaico para a ambientação da trama.

Mas mesmo com todas essas qualidades, o que torna A Bruxa uma obra prima é seu desfecho. Nesse momento Egger consegue unir os dois diabos do Raul Seixas, aquele palpável do exorcista (com quem o filme trabalha o tempo todo) e aquele simbólico dos toques. Embora A Bruxa seja sobre o mal literal, encarnado, ele também é sobre a transgressão simbólica que a figura da bruxa representa até os dias de hoje. Em um mundo onde a única opção ao mal absoluto é viver com uma culpa opressiva impossível de sustentar, a bruxa seria um símbolo de liberdade? Como escolher entre o mal absoluto e a infelicidade? Em uma era em que só os extremos são possíveis, boas intenções corrompem mais do que protegem. E isso que torna um conto inspirado em documentos históricos do século XVII tão atual.

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Designer, professora e mestra em arte digital. Viciada em literatura, cinema e cibercultura, encontrou nos games a união perfeita de todos os seus hobbies.